É freqüente no nosso cotidiano, devido às obrigações diárias, que não sobre tempo para observarmos o que de tão intrigante e interessante nos deixaram os antepassados. Às vezes, talvez ainda por resquícios do preconceito, relutamos ainda em manter determinados tabus que, podendo limitar nossa experiência de vida, faz-nos usar tapa olhos ao invés da inteligência e sensibilidade.
Percorrendo por alguns estudos sobre as religiões orientais, uma determinada definição me chamou a atenção em especial. A religião principal da Índia, o Hinduismo, de existência datada de 4000 a 6000 mil anos a.C., que apesar de aceitar a quantidade enorme de divindades no âmbito da sua religiosidade, acredita em apenas Um. Assim, segundo a sua crença, para atingir o
moksha (“liberação” ou “liberdade”), é necessário que se tome consciência que o seu
atman, o espírito ou alma, é idêntico ao
Brahma, a alma suprema, Deus.
Nesta tradição, o deus
Shiva é o destruidor, que destrói para construir algo novo, tornando-o assim transformador. Dentre suas várias representações,
Nataraja é dos dançarinos (
nata) o rei (
raja). Segue abaixo sua explicação alegórica observada pelo escritor e físico teórico Fritjof Capra no livro “
The Tao of physics”.

“Os artistas indianos dos séculos X e XII representaram a dança cósmica de Shiva em magníficas esculturas de bronze de figuras dançantes com quatro braços, cujos gestos soberbamente equilibrados e, não obstante, dinâmicos expressam o ritmo e a unidade da Vida. Os diversos significados da dança são transmitidos pelos detalhes dessas figuras através de uma complexa alegoria pictórica. A mão direita superior do deus segura um tambor que simboliza o som primordial da criação; a mão esquerda superior sustenta uma língua de chama, o elemento de destruição. O equilíbrio das duas mãos representa o equilíbrio dinâmico entre a criação e a destruição no mundo, acentuado ainda mais pela face calma e indiferente do Dançarino no centro das duas mãos, no qual a polaridade entre criação e destruição é dissolvida e transcendida. A segunda mão direita ergue-se num gesto que significa “não tenha medo”, expressando manutenção, proteção e paz; por sua vez, a mão esquerda remanescente aponta para baixo, para o pé erguido e que simboliza a libertação da fascinação de maya. O deus é representado dançando sobre o corpo de um demônio, símbolo da ignorância do homem e que deve ser conquistado antes que seja alcançada a libertação.
A dança de Shiva – nas palavras de Ananda Coomaraswamy – é “a imagem mais clara da atividade de Deus de que se pode vangloriar qualquer arte ou religião”. (...) A dança de Shiva é o universo que dança, o fluxo incessante de energia que permeia uma variedade infinita de padrões que se fundem uns nos outros.”